segunda-feira, 4 de agosto de 2008

APRENDENDO A NOS CONHECER


Aprendendo a nos conhecer


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José Manuel Moran

Texto complementar do livro Aprendendo a viver. 3ª ed.

São Paulo,Paulinas, 2002.


Cada um de nós tem uma forma peculiar de ver o mundo,

de lidar com as novidades,

de reagir a situações complicadas.

Filtramos o mundo a partir de nossas lentes,

experiências, personalidade,

formas de perceber, sentir e avaliar a nós mesmos e aos outros.

Diante de situações idênticas uns sentem-se calmos e outros se apavoram
Os fracassos afundam a uns e estimulam a outros
Enfrentar um novo desafio assusta a muitos e motiva a outros
A perspectiva de um novo relacionamento fascina a alguns e apavora outros.
Os acontecimentos não são o mais importante,

e sim a forma como os encaramos,

os filtros que colocamos,

o significado que lhes atribuímos.

É importante mapear nossa percepção:

como somos, como agimos,

como reagimos diante de diversas situações;

o que fazemos bem, facilmente e o que nos custa;

quais são os nossos dons, os nossos talentos

e quais são os nossos defeitos, problemas.

É importante reconhecer nossas qualidades, valorizá-las, destacá-las.

Encontrar formas de colocá-las em prática,

escolher situações em que elas sejam mais exigidas, necessárias.

Por outro lado, reconhecer nossos defeitos, medos, dificuldades.

Aceitá-los como nossos.

Tentar ir aprendendo a diminuí-los,

a que não nos pesem tanto, a neutralizá-los.

A ênfase será nas qualidades, nos nossos talentos,

mas eles serão mais realçados se nossos defeitos diminuem,

se não nos atrapalham tanto.

É importante ir equilibrando o que temos de melhor

com a diminuição do que nos pesa, do que nos complica.

Nunca seremos perfeitos nem vale a pena tentá-lo.

Podemos encontrar nosso caminho, sendo o que somos,

destacando o melhor que temos,

aceitando o que nos dificulta

e procurando equilibrar, aprender a lidar melhor com o que nos complica.

Assim progrediremos mais,

avançaremos mais,

nos realizaremos mais.

domingo, 3 de agosto de 2008

APRENDENDO A REALIZAR-NOS


Aprendendo a realizar-nos
Da negação à integração


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José Manuel Moran

Texto complementar ao livro Aprendendo a viver. 3ª ed. São Paulo,Paulinas, 2002


Desde pequenos descobrimos o sofrimento, a dor, a inveja, a raiva dentro e fora de nós.

Costumamos, num primeiro momento, tentar negar o que sentimos. Ocultar o lado escuro, complicado da nossa personalidade, da nossa vida; os desejos proibidos, os sentimentos de vingança, raiva, ódio... mesmo contra pessoas queridas.

Em outros momentos, buscamos "bodes expiatórios" - os culpados pelos nossos "males". Pensamos que estão fora de nós, que os outros nos incomodam, nos perseguem, nos fazem sofrer. Achamos que nossos problemas são causados pelos demais. Muitos nos incomodam.

Também costumamos mergulhar no imaginário, nas estórias, na fantasia, nos esportes de massas, nos filmes, onde "sofremos e nos vingamos", torcemos e nos projetamos. Somos heróis ou vilões em horários marcados. Nos projetamos nos triunfos dos outros e nos identificamos com os tropeços dos que se parecem conosco. Preferimos sofrer para depois triunfar (ou participar do triunfo dos outros). Também fazemos comparações com colegas. Admiramos a alguns (que colocamos no pedestal, como modelos) e desprezamos ou rejeitamos outros (eles mexem, nos incomodam).

Muitos permanecem nesse processo de culpar os demais, de mergulhar cada vez mais no imaginário e não modificam substancialmente as suas vidas. Estão sempre fora do seu eixo, voltados para fora. Suas vidas são seqüências de buscas de pretextos, de culpados, de fugas para o imaginário, de dependências de modelos que admiram, invejam ou se submetem ("preciso de você", "sem você não sei viver...")

Outros, em algum momentos de suas vidas, em etapas de crise ou grave insatisfação, começam a aceitar o que vão percebendo, a aceitar-se como vão se vendo, o que vão sentindo, as contradições que aparecem. Observam o que acontece, mas tentam não culpar automaticamente os demais, nem também culpar a si mesmos. Aprendem a gostar de si, a olhar menos para modelos externos e a "fantasiar" menos.

Vão aprendendo a colocar-se metas menos insuportáveis, a viver mais o dia-a-dia, a gostar das pequenas coisas, a dialogar com os outros observando também suas qualidades e não só seus defeitos.

Aos poucos vão aprendendo a acalmar-se, a dar-se valor, a perceber e não negar, a tentar ir modificando-se no que lhes for possível em cada momento. Vão aprendendo a integrar tudo: o passado e o presente, o trabalho e o lazer, a realidade e a ficção. Começam a olhar os outros com novas perspectivas, sentem mais "compreensão" e menos rigidez nas suas idéias, avaliações e atitudes.

Com o passar do tempo, persistindo nessa atitude de aceitação profunda e mudança possível, vão se modificando muito mais do que imaginavam, encontrando uma paz interior autêntica. Vão tendo força para tomar decisões no campo afetivo, profissional. Abrem-se a novos projetos, possibilidades, desafios. Estão caminhando num processo de integração cada vez mais pleno do sensorial, emocional, do intelectual, ético e transcendental. Vão sentindo-se mais realizados e aprendem com cada situação que se lhes apresenta.

Muita gente lê muito, estuda anos, mas permanece na seqüência fechada de culpa-fuga-projeção, encontrando só momentos pontuais de prazer, contrabalançados com intensa ansiedade e insatisfação.

Algumas pessoas rompem o círculo das dependências, enfrentam as mudanças a partir de uma nova atitude de aceitação profunda e atenção às suas possibilidades de mudança. Estas pessoas estão realmente aprendendo a viver.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

CAMINHOS PARA REALIZAÇÃO PESSOAL


Caminhos para a realização pessoal
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José Manuel Moran
Texto do livro Aprendendo a viver. 3ª ed.
São Paulo,Paulinas, 2002, p.70-74
jmmoran@usp.br


Todos os caminhos são importantes se nos ajudam a crescer como pessoas a compreender melhor, a realizar-nos mais, a vivenciar formas mais ricas de comunicação e amor.
O melhor que podemos fazer pela sociedade, pelo mundo, pela família e por nós mesmos é sermos pessoas mais evoluídas, mais maduras, mais humanas.
Podemos conhecer mais e experimentar novas formas de viver, pela ação e pela reflexão, pela intensa comunicação com pessoas e pelo isolamento, pela adesão a uma religião ou a uma filosofia humanista.
Ninguém tem o monopólio de como chegar ao conhecimento ou as chaves da realização pessoal.
• Uns podem chegar à realização pelo sofrimento - quando sabem enfrentá-lo.
• Outros, pelo contato com pessoas interessantes, por leituras estimulantes ou pelo estudo.
• Uns, por formas diferentes de vivências religiosas: meditam, fazem ioga, se isolam, rezam.
• Outros organizam eventos, promovem ações concretas, visíveis, coordenam ou participam de vários grupos...
Qualquer situação ou interação pode ajudar-nos a evoluir, dependendo de como a encaramos. Tudo pode ser-nos útil para o contínuo crescimento, se conseguimos incorporá-lo à nossa vida como aprendizado, como incentivo, como um degrau a mais; se sabemos superar o que tenta prender-nos, o que tenta desvalorizar-nos, humilhar-nos, derrotar-nos.
Todos os caminhos são bons, se nos ajudam a evoluir. Há, porém, caminhos destrutivos: a fuga, a alienação, a humilhação, a emoção contínua negativa, a comunicação inautêntica.
Cada um de nós irá descobrindo que pode combinar e equilibrar ação e reflexão, leituras e práticas, isolamento e interação, humanismo e religiosidade, a partir das suas características pessoais, da sua própria trajetória do passado até o presente, do seu universo mental e emocional específico.
Daremos saltos de qualidade no conhecimento se estivermos atentos aos múltiplos signos da vida. A vida é como um lento desfolhar de novos sentidos, de novos significados: cada camada descoberta nos leva a novas perspectivas, ao aprofundamento de novas dimensões.
Viver nesta atitude de desvendamento revelador é uma das experiências mais gratificantes que o ser humano pode sentir.
Encontraremos os melhores caminhos, se sempre estivermos serenamente atentos para aprender, abertos para a novidade de viver cada dia da melhor forma que nos for possível, em cada momento, agora; atentos para o incentivo, para o apoio pessoal e interpessoal, para não deixar-nos empolgar demais com os sucessos nem abater-nos com os problemas e eventuais "fracassos".
Encontraremos os melhores caminhos, se soubermos aprender com cada circunstância que se nos apresente e se estivermos atentos a tantas formas bonitas de aprender a crescer. Vamos fazer a nossa parte e deixar fluir, dar margem ao imponderável. Estar abertos para o novo. Aceitar as surpresas da vida, o que não esperávamos, tanto o "positivo" como o "negativo".
Monitorar nossas vidas com carinho, afeto, atenção. Aceitar-nos plenamente, continuamente, incondicionalmente. Aceitar o que fomos, o que somos, o que seremos.
Rever o nosso passado como etapas de grande aprendizagem, de evolução. Aceitá-lo como nosso, como algo que está em nós. Estar atentos aos sinais de impaciência, de crítica, de desânimo, de depressão.
Não obrigar-nos a carregar pesos insuportáveis. Assumir os descontroles eventuais, a perda de sentido, as indefinições. Apoiar-nos sempre, esperar sempre, confiar sempre.
Incentivar-nos, dialogar permanentemente conosco, buscar apoio nas dimensões misteriosas do nosso universo, em tantas forças que interagem com a gente, para poder perceber mais e mais a complexidade que nos rodeia.
Acreditar sempre em nós mesmos, em nosso fluir como pessoas, em que há um sentido maior para o nosso dia a dia, em que tudo contribui para a nossa aprendizagem e para o nosso aperfeiçoamento.
Viver no presente, atentos ao futuro, mas sempre valorizando o que está acontecendo no aqui e agora, que nos acompanha e que podemos transcender, mas nunca negar.
Procurar viver com simplicidade, menos apegados aos bens e ao poder. Ir na contramão do consumismo, da posse, da ostentação.
Ir na contramão da tendência a possuir, ter, acumular, juntar, multiplicar bens, de ter que lucrar sempre, o mais possível, obsessivamente; da tendência a ostentar, a mostrar status, luxo, poder, alto padrão de vida; da tendência a consumir, a ter que comprar, de necessitar sempre de roupas, de novidades, de modas.
Ter o necessário e procurar necessitar cada vez menos coisas. Ter sem possuir, sem apegar-nos, sem deixar-nos dominar pelos objetos, pessoas, pelo desejo do que não é nosso.
Comunicar-nos da forma mais autêntica e aberta possível, colaborando para que haja maior entendimento e confiança. Manter um diálogo permanente com tudo que nos rodeia.
Contribuir para que haja um clima mais harmônico ao nosso lado, para sermos elementos de união e não de discórdia.
Pedir desculpas a nós mesmos e desculpar-nos quando erramos, quando nos perdemos, quando cometemos injustiças, críticas exageradas, julgamentos apressados.
O importante é estar vivenciando continuamente processos de liberdade e de realização, em todas as dimensões, na medida em que formos capazes, em cada momento das nossas vidas. Viver no ritmo possível, no tempo possível, nas formas possíveis.
Mudar os aspectos da nossa vida até onde formos capazes, para encontrar nossa identidade, nosso estilo, nossa forma de comunicação e de gestão.
Assim iremos tornando-nos pessoas mais livres, marcantes e realizadas.

APRENDENDO A VIVER..............


APRENDENDO A VIVER
José Manuel Moran
Caminhos para a realização plena.
São Paulo: Paulinas, 3º ed, 2002


Cada um de nós, com o passar dos anos, revela, pelas suas ações e palavras, o que aprendeu realmente e em que tipo de pessoa vai se transformando: mais ou menos aberta, afetiva e interessante.


Muitos não acreditam em si mesmos, no seu valor. Fingem o que não são, representam papéis, dependem da aprovação dos outros.

Aprendemos a viver melhor no diálogo permanente, coerente - às vezes tenso e contraditório, mas confiante, humilde e afetivo - com o que percebemos, sentimos e compreendemos e com tudo o que nos rodeia: pessoas, grupos, ambientes presenciais e virtuais.

Avançamos mais se focamos o aqui e agora, comunicando-nos de forma aberta, acolhedora, no ritmo possível, sem cobranças negativas, nem expectativas irreais.

Aprendemos se também encontramos algo que nos motiva profundamente, que nos estimula intimamente, que dá sentido a nossos pensamentos e ações.

Numa sociedade dominada pelo valor das aparências, do consumismo e do marketing, nosso maior desafio é aceitar o que somos, o que construímos e continuar mantendo a esperança na nossa capacidade de aprender e de viver com coerência entre o que pensamos e agimos, transformando nossa vida em um processo cada vez mais rico de conhecimento, de afeto e de realizações.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O OLHAR


O OLHAR
O olhar é muito mais do que função fisiológica, É uma linguagem forte. É um universo carregado de sentido. É condensação do mistério do homem. Relata o destino de muita gente. Provoca alterações decisivas na vida.
Mesmo o olhar indiferente suscita reações contraditórias. O olhar é, em grande parte, a morada do homem. O universo do olhar é vasto e misterioso. Olhar habitação que acolhe o próximo que passava desabrigado. Olhar rejeição que distancia o gesto de diálogo. Olhar atração que cativa e envolve o semelhante. Olhar envenenado que espalha ameaça.
Olhar inocente que semeia simplicidade pela face da terra. Olhar malicioso que planta a semente da maldade no corpo dos homens. Olhar indiscreto que revela as intimidades humanas. Olhar sigiloso que arquiva quadros dolorosos e cenas humilhantes. Olhar atento que não desperdiça o menor sinal de boa vontade.
Olhar displicente que esquece a presença do outro. Olhar compreensivo que apaga os rastos dos erros. Olhar intolerante que espreita o deslize da fraqueza. Olhar generoso de Cristo que abraça toda Jerusalém. Olhar mesquinho do fariseu que cata e filtra migalhas.
Olhar pastoral de Cristo que recupera Pedro hesitante. Olhar encolerizado que fulmina o parceiro. Olhar apelo que suplica compaixão e ajuda. Olhar intransigência que cobra a última gota de sofrimento. 'Olhar amor que unifica os que se querem. Olhar ódio que esfaqueia os que se detestam.
Olhar história que vive a evolução das construções, o fluxo das gerações, o movimento dos estilos. Olhar documentação que registra as clareiras dos horizontes, a floração dos campos, o sangue dos acidentes, o desesperado precipitando-se do edifício, o último aceno de quem está se afogando.
Olhar de ansiedade que fica na estrada acompanhando aquele que parte. Olhar de esperança que não sai da estrada, aguardando a volta do filho pródigo. Olhar do recém-nascido que anuncia a chegada de uma existência. Olhar do agonizante que procura perpetuar sua presença entre os que ficam. Olhar evangélico que anuncia o reino de Deus. Olhar céptico que recusa os sinais da esperança.
Olhar consciente que ativa a reflexão humana. Olhar coisificado que manipula os homens como objetos. Olhar libertador que retira o irmão do cativeiro moral. Olhar argentário que industrializa até os sentimentos humanos. Olhar decidido que busca a realização pessoal.
Olhar evasivo que evita o encontro com a realidade. Olhar pacifico que reconcilia as vidas separadas. Olhar reticente que fragmenta a confiança. Olhar de perdão que põe de pé a quem estava caído.
Olhar de rancor que jura vingança impiedosa. Olhar feroz do perseguidor, do tirano, do opressor. Olhar encolhido, amedrontado do perseguido. Mas, que grandeza nesse olhar acuado! A última resistência do homem esmagado se refugia no olhar oprimido.
Diz Levinas que o arbitrário enxerga a sua vergonha nos olhos de sua vítima. Por isso, o agressor procura destruir, eliminar o oprimido. Pois não suporta o olhar que o acusa, que o julga, que o condena.
Mas, o Olhar que a arbitrariedade apaga na vida do oprimido, reacende-se na consciência do tirano como verme roedor. O olhar é também linguagem de Deus. Copiado por JCSJr. Do livro "ESTRADEIRO" de Juvenal Arduini - Edições Paulinas

domingo, 27 de julho de 2008

PEDAGOGIA DO AMOR



A pedagogia do Amor
Roberto Crema

Psicólogo e antropólogo do Colégio Internacional dos Terapeutas, analista transacional didata, criador do enfoque da Síntese Transacional. Mentor da Formação Holística de Base da UNIPAZ. Diretor da Holos Brasil. Educador e autor de vários livros, entre os quais "Análise Transacional Centrada na Pessoa", "Introdução à visão holística" e "Saúde e plenitude". Vice -reitor da UNIPAZ.
Religar conhecimento ao amor é o mais instigante desafio do momento. É esta a metavirtude que precisa orientar nossa sofisticada tecnociência. Como afirmou um sábio, o amor é a tecnologia mais sofisticada de todos os universos!... Sem amor não é possível reinventar e reencantar nenhum mundo, nenhuma sala de aula... Nós precisamos da pedagogia do amor, porque esta é a primeira e a derradeira lição de uma escola transdisciplinar holística da existência. Somente no dia em que aprendermos a amar total e incondicionalmente é que receberemos um certificado de humanidade plena. Esta é a Utopia Humana e estamos aqui para fazê-la florescer...

Não é difícil constatar que o desencantamento do mundo se deu através da desconexão com esta fonte de Vida, sobre a qual Teilhard de Chardin afirmava: "Quando os seres humanos domarem as ondas, os ventos, as tempestades, os furacões, quem sabe não dominarão, também, as forças do amor? Então, pela segunda vez na história da humanidade, teremos inventado o fogo!"

Aprender a conhecer e a fazer de forma integrada, através da experiência viva e com discernimento continua sendo uma arte a ser devidamente aplicada e aperfeiçoada. Para tal, necessitamos de uma escola do Olhar, pois a visão é a véspera do conhecimento. Abrir o olhar para si, para o outro, para o Universo e o Totalmente Outro, eis uma lição fundamental. Um olhar fluídico, que não fica paralisado num único alvo, capaz de acompanhar a dança do agora. Mudar o mundo é mudar o modo de olhar... Necessitamos, também, de uma escola da Escuta. Escutar antecede compreender. Precisamos transcender esta crise absurda, esta surdez diante dos alaridos e canções da realidade.

Aos 15 anos, orientei meu coração para aprender.
Aos 30, plantei meus pés firmemente no chão.
Aos 40, não mais sofria de perplexidade.
Aos 50, eu sabia quais eram os preceitos do Céu.
Aos 60, eu os ouvia com os ouvidos dóceis.
Aos 70, eu podia seguir as indicações do meu próprio coração, porque o que eu desejava não mais excedia as fronteiras da Justiça.

Quando orientamos o coração para aprender? Não apenas para conhecer o mundo exterior e para, nele, atuar. Sobretudo para aprender a estar no mundo, navegar o encontro e florescer como seres humanos. Para tomar consciência do fio de ligação que conecta todos os nossos passos e todos os eventos no qual habitamos. Como afirma o estadista, Václav Havel, a educação, hoje, é a capacidade de perceber as conexões ocultas entre os fenômenos.

Quem é terapeuta sabe que cada sintoma é um texto sagrado, que precisa ser escutado e interpretado, em seus múltiplos significados. Como afirma a sabedoria dos velhos rabinos, cada frase bíblica é suscetível de 72 interpretações! Pois são 72 os nomes que damos àquilo que não tem nome, segundo a Cabala. Esta é uma sábia prevenção contra o perigo dos catecismos estreitos e dos fundamentalismos fanáticos, cuja tragédia estamos presenciando. Como afirmou um sábio, fanático é uma pessoa que não muda de idéia e nem de assunto!

Roberto Crema

sábado, 26 de julho de 2008

A INFLUÊNCIA DA SOCIEDADE NA SAÚDE DO INDIVÍDUO

A influência da sociedade na saúde do indivíduo
Daniel Caetano

Crise existencial é quando todas aquelas perguntas que você sabe que não têm a menor importância na sua vida se tornam definitivas e fundamentais para cada um de seus próximos passos.
Quem eu sou, pra que eu existo, existe um Deus, por que me danar pelos outros...? São todas perguntas legais e interessantes... são a fonte de milhares de horas de conversa... mas por um certo ponto de vista, são também completamente irrelevantes ao dia-a-dia de cada um.
Para este dia-a-dia, talvez algumas respostas bem simples (não necessariamente corretas) bastem: vivemos porque não estamos mortos, existimos para sobreviver, Deus existe para que não tenhamos que pensar em como isso tudo surgiu e devemos ser bons uns com os outros porque esta é uma regra social que, no limite, garante um ciclo virtuoso.
Mas porque, então, entramos em crise existencial? Talvez porque nem sempre seja um problema psicológico, talvez pelo vício de questionar e pensar, talvez por falta do que fazer...
Mas talvez ainda porque somos muito cobrados a agir "da forma correta", um "correto" exógeno a nosso próprio eu, tão difícil de definirmos. Na ânsia de entender essa "forma correta" e agir dentro destes parâmetros... temos uma necessidade desenfreada de buscar o conhecimento do sistema em que nos encontramos, para que possamos tomar atitudes "acertadas" dentro desta realidade.
E é curioso que muitas vezes fugimos completamente desta "forma correta", para não termos de nos enquadrar neste paradigma de mundo imposto, mas sem querer caimos em uma outra espécie de crise existencial, por abandonarmos o convívio social usual, quando então nosso "eu" passa a gritar pela necessidade de vivência em grupo. Nisso, muitas vezes abandonamos todo o senso de preservação apenas para nos enquadrarmos num grupo que não siga os parâmetros normais "corretos".
A crise então passa a ser encontrar justificativas para não vivermos nos padrões "normais". Como disse Renato Russo, "Era provar pra todo o mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém"...

Isso porque a vida em sociedade é praticamente uma necessidade fundamental do ser humano, uma grande e real necessidade. Alguns gostam de dizer que "ninguém é uma ilha" e, apesar de não gostar da comparação, ela expressa razoavelmente bem a natureza aparentemente social do ser humano. E uma vida em sociedade tem inegáveis méritos... é evidente em tudo que a humanidade é hoje, assim como é evidente na organização de um formigueiro ou uma colméia.
Entretanto as organizações humanas parecem ter um grau de complexidade para o qual nós mesmos não temos competência de gerir, visto que a sociedade atual está completamente desequilibrada e pressionando seus membros a um ponto quase insuportável.
Temos freqüentemente colocado a culpa da queda da qualidade de vida na alimentação, na falta de exercícios e tudo o mais. No entanto, o problema me parece algo muito mais abrangente.
Hoje vivemos de uma forma artificial, não no sentido de "feito pelo homem", mas no sentido de "não parece adequado que seja assim". Trabalhamos quase o tempo todo em que não estamos dormindo, temos que inventar formas mais rápidas de nos alimentar e a necessidade de dormir menos acaba tirando o ânimo para qualquer exercício físico.
Com isso a alimentação é ruim - desde a má mastigação até o tipo de comida que é possível ingerir em alguns poucos minutos. A falta de tempo para fazer coisas prazerosas, bem como a falta de sono, geram ansiedade que diminuem nossa produtividade (e portanto tendo que dormir ainda menos para produzir o mesmo). Além disso, nosso sono fica ruim (ninguém dorme bem ansioso) e, em muitos casos, ou passamos a comer demais num gesto compulsivo característico da ansiedade, ou deixamos de comer por completo, num gesto depressivo... em qualquer dos casos agravando ainda mais a situação.
Será que a culpa está de fato em comer demais e fazer exercício de menos, ou isso é sintoma de uma doença chamada "exagero da cobrança do indivíduo na sociedade"?
Eu fico sempre pensando: quando inventaram o regime de 8 horas de trabalho diários, não imagino que as pessoas ficavam 3 horas por dia no trânsito. O trabalho também não devia ser sentado e as pessoas não tinham que fazer 1 hora de exercício fora do trabalho como hoje. Ninguém perdia 30 minutos do tempo de almoço indo até o restaurante mais próximo. Na verdade, naquela época as pessoas sequer deviam gastar 30 minutos no banho todos os dias.
O cansaço físico das pessoas devia ser grande e o mental menor. Apesar de existir ansiedade (sempre existe) o sono do sujeito era quase garantido pelo cansaço físico. Oito horas de sono? Sim. Oito horas. O sujeito acordava às 4:30, mas ia dormir às 20:30, depois de jantar... porque não havia luz nem TV. Era o tempo de chegar em casa, fazer comida, dar um jeito na casa, conversar com a mulher e filhos e ir dormir.
Não que a vida fosse "melhor" (na forma como aprendemos a valorar as coisas), mas olhando as "horas que não se perdia" quando a jornada de trabalho de 8 horas foi criada, é possível observar que trabalhando 8 horas e dormindo 8 horas, o sujeito ainda tinha praticamente 8 horas, de fato, para fazer suas coisas. Ou algo bem perto disso.
No nosso caso, se descontarmos as 3 horas de trânsito diárias (8-3 = 5), 1 hora de exercício diário (5-1 = 4), 30 minutos do banho + 30 minutos do deslocamento do almoço (4-1 = 3)... Vemos que o tempo que temos para lazer, cuidar da casa, almoçar e jantar, ficar com os filhos, estudar para se aprimorar, etc... foi reduzido de 8 horas para 3 horas, tudo isso em pouco mais de 100 anos.
Obviamente esta é uma análise mega-grosseira, mas termos apenas 3 horas para realizar todas estas atividades é inviável. Resultado: como não podemos tirar horas de trabalho, tiramos do sono e, ao invés de melhorar o quadro, pioramos.
E nesse ponto eu ainda não entrei na questão que, com o avanço dos meios de produção, não existe mais trabalho para [(6.000.000.000 pessoas / 2 pessoas/pessoa_ativa) * 8 horas/dia] 24 bilhões de pessoas_ativas*hora/dia no mundo. Por esse motivo, existem pessoas se matando de trabalhar (8 horas *ou mais* por dia) e tendo todos os problemas que eu citei acima... enquanto outras não possuem emprego e têm outros tipos de problemas - sub-nutrição, ansiedade por não achar emprego, desespero por ver os filhos se marginalizando, etc.
Não sou sociólogo, mas acredito que o problema da saúde do ser humano atual é a própria sociedade (ou o total descontrole em que ela caiu), cujas distorções têm conseqüências horríveis na saúde de cada simples cidadão do mundo.

Até quando vamos tratar os sintomas, ao invés de tratar a doença?

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A ilha - Uma fábula sobre o autoconhecimento



A ilha
Ricardo Kelmer 1997 - www.ricardokelmer.net

Era uma ilha que vivia no meio do oceano. Levava uma vida tranquila, sem grandes questionamentos. Conhecia outras ilhas e com elas se comunicava. Um dia, porém, uma idéia inquietou a ilha: se toda vez que a maré baixava, uma porção de terra se descobria, então até que ponto haveria terra? Até que ponto a ilha existia?

Isso lhe tirou o sono por várias noites. De repente seu conceito sobre si mesma começou a mudar. Sempre se considerara uma porção de terra boiando à superfície da água, isso era ponto pacífico, todas as outras ilhas também pensavam assim. Mas agora já não podia acreditar nisso. Uma ilha não terminava logo abaixo da linha das ondas. Não. Continuava para baixo. Talvez uma ilha na verdade fosse uma... montanha. Uma montanha com o pico fora dágua. Saber que ela “continuava” além daquilo que sempre julgou ser era algo espantoso de se pensar. Assim, dia após dia, a ilha prosseguiu em seus esforços de auto-investigação - precisava saber até onde existia. Mas à medida que sua atenção mergulhava em si mesma, as águas ficavam mais escuras. Era preciso cada vez mais concentração para não se perder. Ela prosseguiu, mais atenta, e descobriu que aquilo que existia abaixo da superfície continuava sendo ela mesma, sim, mas parecia ter algo como uma vida própria.

Cada vez mais surpresa a ilha constatou que aquela parte mais profunda de si mesma levava uma existência semi-independente, porém interagindo sempre com a superfície: influenciando e sendo influenciada por ela. A ilha então soube a razão porque se comportava dessa ou daquela maneira e muitas coisas ficaram mais claras a respeito de si mesma, de seus relacionamentos com outras ilhas e da vida de modo geral. E a cada descoberta que fazia, outras mais se anunciavam e de repente era como se o Universo se expandisse para dentro dela mesma!

Muito tempo se passou até que se convencesse, verdadeiramente, de que era mesmo uma montanha com o pico emerso. Ela estava presa a uma base e essa base era uma enorme extensão de terra que funcionava como chão. Vinham de lá todas as ilhas. E para lá voltariam todas quando os movimentos da terra, dos ventos e das águas as forçassem a isso. Mas a grande maioria das ilhas não sabia que todas elas continuavam para baixo. Por isso não entendiam as reais motivações de muito do que faziam. A parte acima da superfície era tudo que sabiam sobre si mesmas e isso era pouco. A parte submersa, a montanha, era a parte inconsciente de cada ilha, aquilo que desconheciam de si mesmas. E o fundo do mar era o inconsciente maior, único, de todas elas, o lugar de onde vinham.

Ao entender esse fato a ilha lembrou do tempo em que sua consciência de si própria se limitava àquela minúscula porção de terra à superfície. Todas as ilhas vêm do mesmo lugar - ela repetiu, intrigada com suas descobertas - porque são feitas da mesma terra... A areia e os nutrientes que as raízes de suas plantas colhem, vem tudo do mesmo chão... Todas as ilhas que existem são no fundo uma coisa só que se experimenta em várias extensões de si própria e cada extensão possui consciência de si mas esta consciência é limitada pois quase nunca desce em direção ao fundo, acomodando-se na parte mais superficial... Se cada ilha se aprofundasse em sua noção de si própria, acabaria conhecendo melhor a si mesma e, por virem todas do mesmo lugar, conheceria melhor a todas as outras ilhas.

A ilha viu que eram idéias grandes demais, confundiam a mente. Aquela auto-investigação era importante mas requeria muita atenção para não se perder durante o processo. Só assim poderia transitar com êxito entre as duas camadas de realidade, a que ficava à superfície e aquela mais escura e misteriosa que prosseguia rumo a seu próprio interior.

Enquanto tudo isso acontecia as outras ilhas observavam seu comportamento e não entendiam bem o que ela tentava lhes dizer. A ilha sentiu-se só. Viu-se então pensando do ponto de vista da terra: se elas não se conhecem e elas todas são parte de mim, então eu ainda não me conheço tão bem... Assim sendo, como poderia condená-las? Não, não poderia. Deveria entender e aceitar o ritmo natural da vida de cada uma das ilhas. Deveria agir com a mãe sábia e bondosa que incentiva todos os seus filhos mas tem de respeitar o caminho individual de cada um deles...

Foi então que, subitamente, a ilha percebeu, num intenso clarão de compreensão, que toda aquela vasta extensão de terra lá embaixo funcionava como um útero a expulsar pedaços de si mesma, forçando-os à superfície. Uma vez lá, eles se entendiam ilhas e começavam então sua aventura individual em busca de saber quem de fato eram, de onde vieram e por que existiam. Mas por que a terra fazia isso? Talvez para ela própria aprender com a experiência individual de cada ilha. Ao morrer, uma ilha levava à terra sua própria experiência que serviria para formar as futuras ilhas. Assim, toda ilha continha em si, sem se dar conta, a mesmíssima areia das que a antecederam. Através da vida de cada uma das ilhas, a terra como um todo estava sempre aprendendo cada vez mais sobre si mesma...

Se isso era verdade, então cada ilha possuía uma enorme responsabilidade: conhecer-se a fundo, viver a vida da melhor forma possível e aprender o máximo que pudesse pois tudo o que vivesse formaria o material do qual seriam feitas as ilhas que a sucederiam.

A vida é mesmo uma tremenda aventura! - pensou a ilha enquanto se divertia com os olhares estranhos que as outras lhe lançavam. Uma aventura de cada ilha. Mas também da terra inteira.

Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra, 3a. Pedra do Sol

quinta-feira, 24 de julho de 2008

ME PERCO NA LEITURA


O PODER DO MITO
http://www.magnifica.com.br/ebook/o_poder_do_mito.pdf

Tendências do comportamento gerencial da mulher empreendedora
http://www.abrad.org.br/enanpad/1999/dwn/enanpad1999-org-09.pdf



quarta-feira, 23 de julho de 2008

DIÁLOGOS IMPERTINENTES – PUC SÃO PAULO